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O Japão, além de ser conhecido por seu gosto estranho em relação a games, também é famoso por seus filmes de terror. Seja falando de fantasmas que buscam vingança ou maldições passadas através de uma fita VHS, as assombrações capilares japonesas se tornaram famosas graças as refilmagens americanas que, em busca de criatividade, encontraram na terra do sol nascente uma fonte quase inesgotável de novas idéias.

Mas nem só de fantasmas pálidos é formado o cinema nipônico. Há um lado mais sangrento, mais gore, mais exagerado e engraçado pelas terras de lá. Produções que se inspiram na tosqueira de Evil Dead e Bad Taste, nas lutas coreografadas de Kill Bill e na quantidade de sangue e mutilações de Fome Animal, quase sempre de uma vez só, formando verdadeiras pérolas do cinema de horror e ficção, sempre com um ótimo resultado.
Se há algo que meu videogame queimado me trouxe de bom, foi justamente tempo livre para descobrir e apreciar esses filmes. Depois de encontrar o ótimo Battle Royale, resolvi apontar minha pobre banda larga para o Japão e o que achei foi, no mímino, surpreendente.
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Tokyo Gore Police
Baixe. Importe o DVD. Assista no Youtube (sério!!). Faça um abaixo assinado e leve-o ao congresso. Faça qualquer coisa pra assistir o filme. Exagero? Sim, mas só porque tudo em Tokyo Gore Police é exagerado. Desde o formato como a trama é narrada, passando pelo fato de jorrar litros de sangue quando um dedo mindinho é arrancado e o modo como essa produção de 2008 mostra os personagens e referências tradicionais e contemporâneas de um Japão imerso em uma realidade de violência. Exagero é pouco.
Em um futuro não muito distante, Tokyo atingiu níveis estratosféricos de violência graças a um novo tipo de inimigo: os Engenheiros. Aparentemente pessoas normais, os Engenheiros mostram suas verdadeiras faces quando são feridos e se transformam em monstros mutantes, com armas mortais saindo de seus corpos mutilados. Uma mistura pseudo-erótica dos cenobitas de Hellraiser e dos inimigos de Silent Hill.

Contra essa nova forma de inimigos, a violenta polícia privatizada de Tokyo conta com Ruka (a beldade Eihi Shiina). Com uma mini-saia de couro, meia arrastão e espada samurai, ela é considerada a melhor caçadora de Engenheiros da corporação. No entanto, o assassinato de seu pai durante a infância foi algo que a jovem policial nunca conseguiu superar, e um dos mais perigosos Engenheiros parece ter ligação com este passado. É aí que o filme começa a engatar a marcha e acompanhamos a caçada de Ruka a esse criminoso, até chegarmos a conclusão de que tudo foi parte de um plano maior. Durante a investigação, litros e mais litros de sangue e membros decepados são jogados na tela.

Mesmo com a quantidade insana de sangue, é interessante a metáfora mostrada no filme: tudo é violento e nojento para quem assiste, mas os personagens tratam isso como se fosse a cosa mais natural do mundo, graças a um Japão que já trata a violência com banalização. Vemos essa banalização através de comerciais que passam durante a trama, como famílias felizes jogando Wii, com o objetivo de torturar ou matar algum prisioneiro no game. Ou um comercial que vende um estilete personalizado para cortar os pulsos, ou ainda em uma interessante propaganda de facas que “não vão falhar na hora em que você decidir se matar ou matar alguém”. É uma grande brincadeira, mas com um certo elemento de auto análise da mídia das atuais grandes cidades.

Tokyo Gore Police ganhou críticas de ambos os lados: uns acham que o filme é um passatempo divertido e sangrento, e por isso mais do que recomendado aos fãs de terror; outros o consideram uma tralha que não merece ser assistida. Eu já tenho minha opinião formada.
Tokyo Gore Police Trailer
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The Machine Girl
Houve uma época, entre 1995 e 1998, em que eu tinha outra paixão além dos games: quadrinhos. Não era um fã inveterado, mas comprava todo mês pelo menos uma revistinha dos X Men. Isso me ajudou a ter conhecimento mínimo sobre o assunto, o que me ajuda até hoje nas animadas conversas nerd de boteco. Mas o que eu nunca tive saco foi para os mangás e suas leituras de trás pra frente.

Mesmo não sendo um leitor ativo como era há mais de 10 anos atrás, ainda acho que posso identificar filmes que possuem aquela pegada das HQs, sejam mangás ou não. The Machine Girl é a personificação de todos os absurdos que nos fazem grudar na leitura de uma boa história em quadrinhos, mesmo não sendo baseada em nenhum mangá ou HQ. Arrisco a dizer, na minha grande ignorância, que é um dos grandes clássicos do humor negro e terror e não deve nada em diversão descompromissada e violenta em comparação a Evil Dead, Fome Animal e Bad Taste (googleai amigos).

A história é básica: garota normal despiroca e busca a vingança de seu irmão, morto pelo filho do chefão da Yakusa. Ami Hyuga (a gracinha Minase Yashiro), é mais uma entre as milhares de estudantes que vestem aquele feitichista uniforme de colegial. Tudo ia bem até seu irmão ser morto pelo filho do mafioso Ryuji Kimura, que tem um cabelo igual ao do Wolverine. A família Kimura é tão violenta que matam os empregados ao menor sinal de incompetência – e se não matam, torturam por motivos fúteis, como o cozinheiro que é forçado a comer seus dedos decepados como sushis depois de derrubar macarrão no chão.

Ami encontra o clã Kimura, mas falha em realizar sua vingança. Torturada e mutilada, ela consegue fugir e busca auxílio na família de um amigo de seu irmão, também morto pelo filho de Kimura. Seus pais então constroem uma super metralhadora para ser acoplada ao braço amputado da garota, que sai novamente em busca de vingança, parecendo agora uma versão feminina de Ash, herói da trilogia The Evil Dead.

No entanto os membros da Yakusa não ficarão parados e preparam sua defesa com a Liga dos Ninjas Mirins, o sutiã-furadeira da matriarca dos Kimura e a Gangue dos Pais Entristecidos, tudo em batalhas memoráveis, inventivas, épicas e violentíssimas que lembram muito os filmes de Tarantino, principalmente Grindhouse e Kill Bill, como na luta de Uma Thurman contra os Crazy 88. A profusão de sangue é igualmente grandiosa, uma grande coletânea de cortes, tiros, queimaduras, traumas, cabeças rachadas… Tudo on-screen e tão exageradas e caricatas que causa risos e náuseas na mesma freqüência. O exército de Amy Hyuga é realmente de uma mulher só e o senso de misericórdia da garota foi literalmente pro vinagre. Não pensem em topar com ela com TPM.

Altamente recomendável, descrever esse filme de 2008 é como descrever pornografia: se trata de uma experiência visual jogada na cara do espectador e que as palavras não conseguem traduzir com justiça. O diretor Noboru Iguchi sujou minha casa de vermelho e me ganhou com este filme. Espero que suje a de você também.
The Machine Girl Trailer
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Suicide Club
Fato: em 2005 foram registrados mais de 32 mil casos de suicídio no Japão, o que segundo Organização Mundial da Saúde torna o país com a maior taxa de suicídios no mundo (24 para cada 100 mil habitantes). Desses suicídios, quase 900 eram de estudantes.

O terceiro filme (também conhecido como Suicide Circle) é o mais sério da lista, mas não o menos sangrento. Eu poderia descrevê-lo de duas maneiras, e isso influenciaria o interesse do leitor para assistir ou não o filme: A) um diretor japonês cujas experiências anteriores se limitam em realizar filmes pornôs gay se aventura no cinema de terror com uma produção de baixo orçamento com roteiro confuso e que não agradará todas as audiências ou B) trata-se de um filme complexo e intenso, onde o banho de sangue está presente, uma verdadeira pérola do cinema de terror japonês, e ainda com uma grande crítica social embutida: a alta taxa de suicídios do país.
Magistralmente aplaudido em mostras e festivais de cinema por toda o mundo e ao mesmo tempo apedrejado pela sua forma de conduzir, a produção de 2002 é controversa e violenta, com um roteiro bastante complexo (ou confuso, como preferir) e é necessário muitas vezes usar a imaginação para erguer teorias e entender o que se passa na tela. É o típico filme que te faz pensar. E muito.

Metrô de Tokyo, hora do rush. Assim como São Paulo e sua estação da Sé as 18h, o local está abarrotado de gente. Cinqüenta e quatro estudantes (uniformes feitichistas de novo) estão jogando conversa fora na plataforma. Assim que o metrô se aproxima, todas dão as mãos e saltam juntas na linha férrea. Sangue, muito sangue, gritos e correria vieram depois. A polícia está confusa e não sabe por onde iniciar a investigação.
Enquanto isso a onda de suicídios aumenta. No alto de um prédio, estudantes planejam “quebrar” o recorde do metrô e falam sobre suicídio como se fosse a coisa mais natural e normal do mundo. Paralelamente a isso, descobrimos que todos os suicidas tem algo em comum: São fãs de um grupo pop chamado Desert, uma espécie de Xerox do grupo mexicano Rebelde.
Durante o filme acompanhamos a polícia na sua investigação dos suicídios, mas não conseguindo evitá-los. Cada vez mais, grupos maiores ou menores de jovens cometem suicídio, sempre da maneira mais sangrenta possível, deixando todos perplexos. Durante a exibição, uma das teorias apresentadas é que são as letras do Desert que incitam os jovens ao suicídio, e aí vem uma pequena, mas sutil, crítica social: se a mídia e os modismos podem nos dizer como nos vestir, nos portar ou ouvir, por que não pode dizer para nos matar? Isso remota aos vários jovens que cometeram suicídios ou crimes e que se disseram influenciados pela música, games ou cinema. Claro, ninguém em sã consciência se mataria só por ouvir Suicide Solution, do Ozzy Osbourne, mas o que dizer daquelas pessoas com mente pequena, que não tiveram a devida educação e atenção de seus pais e acreditam piamente naquilo que jogam, assistem ou ouvem?

A degradação da sociedade japonesa já havia sido explorada em trabalhos como Battle Royale, no clássico Akira e até mesmo em Tokyo Gore Police, mas nunca de uma maneira tão realista quanto Suicide Club. Mas mesmo assim nem tudo são flores. O filme não decide qual o gênero que irá seguir: terror, policial, drama e até romance permeiam a trama, e assim é difícil classificar um filme desses. Outro problema é a quantidade de sub tramas na produção, e por isso é praticamente impossível escolher algum personagem para ser o principal do filme. E com isso chegamos ao roteiro, que as vezes chega a ser um pouco confuso, fazendo você retroceder a algumas cenas passadas pra entender melhor os acontecimentos.
Entre mortos e feridos, o diretor Sion Sono entrega um trabalho surreal e marcante, um grande feito para uma pessoa sem experiência no ramo. Um ótimo exemplar do cinema japonês, injustamente inédito no Brasil. Em tempo: O governo japonês assumiu a existência de pactos de morte desencadeados através da internet onde pessoas se conhecem via rede, se reúnem e em seguida se matam. Dados oficiais de 2005 registram 91 mortos em 34 suicídios coletivos. É realmente um mundo muito doido.
Suicide Club Trailer

