A mulher e sua amiga estão sendo abordadas por um sujeito de rosto redondo e inchado, com uma camisa aberta que fica estufada em sua pança. Renton, que não se esforça nem um pouco para disfarçar seu divertido preconceito contra pessoas acima do peso, aproveita a oportunidade para praticá-lo.

 – Ô Spud, saca aquele balofão. Guloso de merda. Não levo fé em todo esse papo de que é uma coisa de glândulas ou metabolismo. Não se vê nenhum gorducho nas imagens da Etiópia que aparece na tevê. Por acaso eles não têm glândulas por lá? Ah, pára com isso. – Spud responde aos comentários com um sorriso chapado.

Renton decide que a garota tem bom gosto, porque dispensa o gordo. Gosta do jeito como ela faz isso. Segura e digna, sem sacanear o cara, mas sem deixar dúvidas de que não está interessada. O cara sorri, estende as mãos e inclina a cabeça de lado, e é recebido por uma saraivada de risadas zombeteiras de seus amigos. Esse incidente deixa Renton ainda mais determinado a falar com aquela mulher.

Renton acena para que Spud o acompanhe. Como odeia tomar a iniciativa, alegra-se quando Spud começa a falar com a amiga da garota, até porque Spud não costuma fazer aquele tipo de coisa. A anfetamina certamente está ajudando, mas Renton fica um tanto perturbado ao escutar que Spud está tagalerando sem parar sobre Frank Zappa.

Renton tenta se aproximar de uma maneira que considera descontraída mas interessada, sincera mas tranqüila:

– Desculpe por me meter em sua conversa. Só queria dizer que admirei o excelente gosto que ce demonstrou ao chutar aquele gordacho agora há pouco. Achei que cê podia ser uma pessoa legal pra conversar. Se cê mandar ir pro mesmo lugar que o gordacho, não vou ficar magoado. Meu nome é Mark, a propósito.

A mulher sorri de uma maneira levemente confusa e condenscedente, mas para Renton aquilo é infinitamente superior a um “vai se foder”. Enquanto conversam, Renton começa a ficar preocupado com sua aparência. Os efeitos da anfetamina estão diminuindo aos poucos. Teme que seu cabelo, pintado de preto, pareça ridículo, e que suas sardas alaranjadas, maldição de todo filho da puta ruivo, estejam muito evidentes. Antigamente se achava parecido com o Bowie da era Ziggy Stardust. Alguns anos atrás, contudo, uma mulher disse que ele era a cada do Alec McLeish, jogador de futebol do Alberdeen e da seleção escocesa. Desde então, o rótulo permaneceu. Quando Alec McLeish pendurou as chuteiras, Renton decidiu viajar até Alberdeen para assistir à sua despedida, como sinal de gratidão. Lembrava de uma vez que Sick Boy sacudiu a cabeça em desalento, perguntando como um cara que se parecia com Alec McLeish podia esperar ser atraente para as mulheres.

Assim, Rentonpintou seu cabelo de preto e o arrepiou para tentar apagar a imagem de McLeish. Agora, teme que alguma mulher com que saia morra de rir quando ele tirar as roupas e revelar seus pentelhos alaranjados. Pintou também as sombrancelhas e pensou em pintar seus pêlos pubianos. Em um acesso de estupidez, pediu a opinião de sua mãe.

– Não seja idiota, Mark – ela respondeu, atiçada pelo desequilíbrio hormonal da fase da vida pela qual passava.

A mulher chamava-se Dianne. Renton acha que acha ela bonita. É um julgamento necessário, pois suas experiências anteriores o ensinaram a nunca acreditar inteiramente em sua opinião quando substâncias químicas estão zanzando pelo seu corpo e seu cérebro. Começam a conversar sobre música. Quando Dianne informa a Renton que gosta de Simple Minds, têm sua primeira discussão moderada. Renton não gosta de Simple Minds.

– Simple Minds virou uma bosta completa desde que se meteram com essa tendência imbecil de rock engajado inventada pelo U2. nunca mais levei fé neles desde que abandonaram suas raízes progressivo-farofa e começaram com esse negócio hipócrita de politicagenzinhas. Gosto muito do material antigo, mas desde New Gold Dream eles são um lixo. Todo esse negócio de Mandela é muito constrangedor – resmunga.

Dianne diz acreditar que o apoio dos Simple Minds a Mandela e a uma África do Sul multirracial é muito sincero.

Renton sacode a cabeça com certa intensidade, tentando ficar tranqüilo, mas continua nervoso por causa da anfetamina e da opinião de Dianne. – Tenho umas New Music Express antigas, a partir de 1979, bem, eu tinha mas joguei fora anos atrás, mas lembro de entrevistas em que o Kerr desprezava o engajamento político de outras bandas, dizendo que os Minds só se importavam com a música, cara.

– As pessoas têm o direito de mudar – responde Dianne.

Renton fica desarmado com a pureza e a simplicidade dessa afirmação. Isso faz com que a admire ainda mais. Encolhe os ombros e admite esse argumento, embora sua mente não pare de tagalerar que Kerr sempre esteve um passo atrás de seu guru Peter Gabriel e que desde o Live Aid ser visto como um bom moço virou moda para qualquer rockstar. Ainda sim, fica quieto e decide tentar ser menos dogmático a respeito de suas opiniões sobre música dali pra frente. Em uma perspectiva mais ampla, reflete, isso tudo não quer dizer porra nenhuma.

Depois de um tempo, Dianne e sua amiga vão ao banheiro para discutir sua avaliação de Renton e Spud. Dianne não consegue se decidir a respeito de Renton. Acha que ele é meio imbecil, mas o lugar está cheio de imbecis e ele parece um pouco diferente. Não diferente o bastante para ser levado a sério, ainda assim. Mas estava ficando tarde…

Spud diz alguma coisa para Renton, que não consegue escutá-lo por causa de uma música do The Farm, que, segundo Renton, como todas as outras músicas da banda, só é tolerável se você tomou uma tonelada de ecstasy, e se você tomou uma tonelada de ecstasy seria um desperdício ficar ouvindo The Farm, já que estaria bem melhor em uma rave se sacudindo loucamente ao som de bate-estacas techno. Mesmo que estivesse escutado Spud, seu cérebro está fodido demais para responder, aproveitando um descanso merecido depois de todo o esforço feito para conversar com Dianne.

Renton começa então a falar bobagens íntimas para um sujeito de Liverpool que está passando férias por lá, só porque o sotaque e a aparência do cara o fazem lembrar de seu amigo Davo. Logo percebe que o cara não tem nada a ver com Davo e que foi bobagem ter revelado aquelas coisas particulares. Tenta voltar para o balcão, mas não consegue encontrar Spud e acaba percebendo que está totalmente dopado.Dianne vira uma lembrança distante, uma intenção vaga perdida em meio ao seu estupor dopado.

Sai do bar para respirar um pouco de ar fresco e enxerga Dianne prestes a entrar sozinha em um táxi. Com certa angústia invejosa, pensa que aquilo pode significar que Spud foi embora com sua amiga. A possibilidade de ser o único a não pegar ninguém o apavora, e é o mais puro desespero que o incita a seguir diretamente na direção dela.

Trainspotting, pg 139

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