Uma das coisas mais legais que me lembro da minha infância era a quantidade de fliperamas que havia na cidade. Do mesmo jeito que há uma lan-house em cada esquina, os fliperamas pipocavam por toda parte. Quase sempre eram lugares suspeitos, sempre havia uma nuvem de fumaça no ambiente e o clima era meio barra pesada, sempre com moleques mal encarados pronto pra matar alguém em troca de uma ficha, e sempre vinha a mãe de alguém com a história que fulano tinha sido assaltado e sei lá o quê.

Foi nesse tipo de ambiente que eu passei a maior parte da minha infância e adolescência, sempre preferindo cabular aula e torrar o dinheiro seqüestrado da carteira do pai. Havia pinballs geniais, e uns jogos devoradores de fichas, tipo Final Fight e Cadillac & Dinossaurs, que deixou muita gente na penúria. Mas a máquina que imperava, sem dúvida, era a do Street Fighter II, seguida de perto por Mortal Kombat.

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A graça era ir num fliperama depois da escola com a galera da sala e entrar na fila da máquina, que funcionava num esquema informal de “quem ganha fica”. Naquela época, um carinha da minha sala passou a tarde inteira invicto, com uma ficha só, e entrou para a história. Mas, não muito tempo depois, apanhou brutalmente de um moleque de rua que jogava com o E. Honda e caiu em desgraça.

Eu particularmente nunca fui bom em Street, sempre girando a alavanca como um alucinado e apertando os botões desesperadamente, ganhando apenas algumas poucas vezes. Já em Mortal Kombat eu era uma negação total, mal passando do terceiro estágio e perdendo quase de perfect sempre que alguém ia tirar um contra comigo. Meu negócio era as máquinas do tipo Hack´n Slash, como Final Fight, Captain Comando e Golden Axe. Nunca salvei nelas com menos de 4 fichas, mas eu era melhor que muito neguinho naquela época.

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O primeiro sinal da morte dos fliperamas veio com um novo tipo de jogatina, que pode ser considerado o avô das lan houses: o aluguel de videogames. Você chegava e alugava um Super Nintendo ou Mega Drive por uma hora, pagando o mesmo preço por míseras cinco fichas. Se, dependendo de sua habilidade, cinco fichas não davam pra jogar nem por 15 minutos, o aluguel de videogames se tornou um negócio tão lucrativo quanto vender raspadinha na praia. Foi nesse ambiente que conheci grandes clássicos como Sonic, Top Gear 2 e International Soccer. Jogos que quase me fizeram vender um rim pra poder substituir meu velho Master System por um Super Nintendo novinho em folha, top de linha. Essa foi uma época de ouro, quando os consoles de 16 bits começaram a encostar nos fliperamas em termos de gráfico e jogabilidade e, conseqüentemente, ultrapassando-os com o passar dos anos.

Paralelamente a isso, os fliperamas começaram a invadir os grandes shoppings. As fichas foram trocadas por cartões magnéticos e o ambiente enfumaçado foi substituído por um local bem iluminado, com seguranças e ar condicionado. Soma-se isso o fato de que cada máquina tinha o preço nas alturas e toda a graça de uma partida de Street fighter acabou se esvaído aos poucos.

Mesmo assim, a cada ano que se passava as empresas lançavam máquinas e mais máquinas nos fliperamas. The King of Fighters, Fatal Fury (jogo Real Bout até hoje), Daytona USA, Killer Instinct e muitas outras faziam a vida de milhares de pessoas mais feliz. Quando era office boy, passava metade do meu trabalho jogando em fliperamas dos mais diversos pontos da cidade, do centro de São Paulo ao mais fuleiro da Z/S e Z/L, sempre com um sorriso no rosto.

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Mas como dizia aquele gordinho do Bamerindus, o tempo passa, o tempo voa. Aos poucos os fliperamas foram sumindo, substituídos pelas máquinas caça-níqueis, muitas vezes usadas por ex-praticantes da incrível arte de apertar botões, e pelas lan houses. Hoje, se eu quiser uma bela partida, como nos velhos tempos, tenho que recorrer a um fliperama na Rua Sete de Abril, centro, ou na Rua Coelho Lisboa, Tatuapé. Locais em que o tempo parece não ter passado, sempre com uma máquina de Street Fighter ou Mortal Kombat à disposição, com um carinha ao lado com olhar de psicopata, pronto pra te desafiar. Locais que são habitados por engravatados na hora de almoço em partidas “sociáveis” com algum desconhecido, sempre rodeados por uma platéia que espera ansiosa por sua vez, e com moleques de rua que não param de gritar “dá a magia, dá a magia!”.

Os fliperamas, assim como meu antigo amigo da escola, caíram em desgraça, e as máquinas novas simplesmente pararam de chegar no Brasil faz tempo. No Brasil. Já no Japão a coisa muda de figura. Com fliperamas tão potentes quanto um Play 3 ou um Xbox 360, os grandes nomes de lá são Street Fighter 4 e Tekken 6. Em fliperamas do bairro gamer-até-a-medula Akihabara, existe até narrador, com microfone e telão, descrevendo os grandes embates do dia, tal qual um Galvão Bueno da vida.

Às vezes penso como seria isso por aqui, mas não por muito tempo. Poderia acontecer de alguém roubar o microfone do pobre coitado.

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patinho