Nunca achei que isso ia acontecer comigo, mas acho que estou ficando velho. Até pouco tempo achava que ia ter uma velhice inteligente e saudável, que nunca ficaria desatualizado com as coisas. Sou um filho da Era da Informação, desde novo me habituei a operar as mais diversas interfaces. Desatualização? Nunca!

Mas agora, prestes a fazer 27 anos de vida, estou começando a perceber que a variedade das coisas está me incomodando, como incomoda um velho. Eu não tenho mais saco para ficar decorando raças de cachorro. Na minha época só existiam pastor alemão, doberman e vira-lata. Agora foram inventar uma porrada de raças mutantes, me obrigando a ignorá-las com muita rabugice e chamá-los todos apenas de “cachorro”.

Com música é a mesma coisa. Meus ouvidos anciãos só reconhecem o bom rock e não conseguem mais identificar a diferença entre drum’n’bass, house, tecno e trance. Para mim é tudo a mesma merda. Junto tudo em um só pacote: música de viado. Como meu avô junta Elvis e Black Sabbath: Música do demônio.

Eu tinha a seguinte convicção: não importa qual será a minha idade, pelas coisas que vejo hoje em dia, acho difícil o comportamento dos jovens do futuro me chocar como minha mãe se choca ao ver uma garota de 11 anos ficando grávida. Porra, eu já vi fotos de gente comendo merda, sendo decapitado, fazendo sexo com defunto, molestando crianças de 5 anos, e nenhuma me chocou. O que será que meus netos vão arrumar para que eu fique indignado e berrando em pleno jantar: “Meu Deus! Onde esse mundo vai parar?”?

Mas a natureza é assim, não tem jeito. Até o Ozzy se choca com as bizarrices de seus filhos. Então, o que será de mim?

É uma agonia profunda. Estou aqui tentando pensar em algo que possa me escandalizar, para ter alguma pista do que esses putos vão inventar. Comer carne humana viva? Não. Criar uma raça de cachorroman? Não. As máquinas dominarem o mundo e aprisionarem os humanos em casulos apenas para garantir a geração de energia? Não! Isso eu já vi no cinema, e pra falar a verdade, foi difícil não esconder a empolgação, torcendo pra que isso aconteça de verdade.

Não posso fazer a menor idéia do que esses cornos vão inventar para que eu fique abismado e (mais) rabugento, me transformando num defensor das tradições puras e inocentes da minha época. Só de pensar nas bizarrices de hoje, já fico com medo do futuro. Por favor, alguém faça um holocausto nuclear antes que isso aconteça.

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