Depois do banquete (mais ou menos) veio o Discurso. A maioria dos convidados estava, entretanto, numa disposição tolerante, e naquele estágio delicioso que eles chamavam de “encher os cantos”. Estavam bebendo suas bebidas favoritas, e mordiscando suas iguarias preferidas, e seus receios foram esquecidos. Estavam preparados para ouvir qualquer coisa, e aplaudir a cada ponto final.

Queridos convidados, começou Bilbo, levantando de sua cadeira. “Escutem! Escutem! Escutem!” – gritaram eles, e continuaram repetindo isso em coro, parecendo relutantes em seguir seu próprio conselho. Bilbo saiu de seu lugar e subiu numa cadeira perto da árvore iluminada. A luz das lanternas caía-lhe sobre o rosto radiante; os botões dourados brilhavam sobre o colete bordado. Todos podiam vê-lo em pé, acenando uma mão no ar, e com a outra no bolso da calça.

Meus queridos Bolseiros e Boffins, começou de novo; e meus queridos Tûks e Brandebuques e Fossadores e Roliços e Covas e Corneteiros e Bolgers, Justa-correias, Boncorpos, Texugos e Pés-soberbos. “Pés-soberbos!” – gritou um hobbit velho do fundo do pavilhão. O seu nome, é claro, era Pé-soberbo. E merecido: seus pés eram grandes, excepcionalmente peludos, e ambos estavam sobre a mesa.

Pés-soberbos, repetiu Bilbo. E também meus bons Sacola-bolseiros, a quem finalmente dou boas-vindas novamente em Bolsão. Hoje é meu centésimo décimo primeiro aniversário: hoje chego aos onzenta e um! “Viva! Viva! Que essa data se repita por muitos anos!” – gritaram todos e bateram nas mesas alegremente. Isso era o tipo de coisa que eles gostavam. Curto e óbvio.

Espero que estejam se divertindo tanto quanto eu. Aplausos ensurdecedores. Gritos de Sim (e Não). Ruídos de trombetas e cornetas, apitos e flautas. Havia, como foi dito, muitos hobbits jovens presentes. Centenas de estojos musicais tinham sido distribuidos. A maioria deles levava a marca VALLE; o que não agradava à maioria dos hobbits, mas todos eles concordavam que eram maravilhosos. Continham instrumentos, pequenos, mas de fabricação perfeita e de tons encantadores. Na verdade, em um canto alguns Tûks e Brandebuques jovens, supondo que o tio Bilbo tivesse terminado (uma vez que ele já tinha dito tudo o que era necessário), agora improvisavam uma orquestra, e começavam a tocar uma toada alegre e dançante. Mestre Everald Tûk e Srta. Melilot Brandebuque subiram numa mesa e com sinos nas mãos começaram a dançar a Ciranda do Pulo: uma dança bonita, mas bastante vigorosa.

Mas Bilbo não tinha terminado. Pegando uam corneta de uma criança ao seu lado, soprou forte três vezes. O barulho silenciou. Eu não vou me demorar muito – gritou ele. Aplausos de toda a platéia. Chamei todos vocês por um motivo. Alguma coisa no jeito como ele disse isso causou uma certa impressão. Fez-se quase silêncio, e um ou dois Tûks aguçaram os ouvidos.

Na verdade, por três motivos! Primeiramente, para dizer a vocês que gosto imensamente de todos, e que onzenta e um anos é um tempo curto demais para viver entre hobbits tão excelentes e admiráveis. Tremenda explosão de aprovação.

Eu não conheço metade de vocês como gostaria; e gosto de menos da metade de vocês a metade do que vocês merecem. Isso foi inesperado e muito difícil. Houve alguns aplausos esparsos, mas a maioria deles estava tentando descobrir se aquilo era um elogio.

Em segundo lugar, para comemorar meu aniversário. Aplausos novamente. Devo dizer NOSSO aniversário. Pois hoje, é claro, é o aniversário de meu herdeiro e sobrinho Frodo. Ele se torna maior de idade e passa a ter acesso à herança hoje. Alguns aplausos perfunctórios dos mais velhos; e alguns gritos de “Frodo! Frodo! Felizardo!” dos mais novos. Os Sacola-bolseiros franziam a testa e se perguntaram o que ele queria dizer com “ter acesso à herança”.

Juntos perfazemos cento e quarenta e quatro anos. O número de convidados foi escolhido para combinar com esse total notável: Uma Grosa, se me permitem usar a expressão. Nenhum aplauso. Aquilo era ridículo. Muitos dos convidados, especialmente os Sacola-bolseiros, sentiram-se insultados, entendendo que tinham sido convidados apenas para completar o número necessário, como mercadorias num pacote. “Uma Grosa! Que expressão vulgar!”

Hoje também é, se me permitem que me refira à história antiga, o aniversário de minha chegada de barril a Esgaroth, no Lago Comprido, embora o fato de ser meu aniversário tenha escapado de minha memória na ocasião. Eu tinha apenas cinquenta e um anos naquele tempo, e os aniversários não pareciam tão importantes. O banquete foi esplêndido, entretanto, embora eu estivesse com uma forte gripe, posso me lembrar e pudesse apenas dizer “buito obrigado”. Agora eu repito a frase mais corretamente: Muito obrigado por virem à minha festinha. Silêncio obstinado. Todos sentiram que alguma canção ou poesia era iminente; e eles estavam ficando enfarados. Por que não parava de falar e os deixava beber à sua saúde? Mas Bilbo não cantou nem recitou. Ele parou por um momento.

Em terceiro lugar e finalmente, disse ele, quero fazer um COMUNICADO. Disse essa palavra tão alto e de repente que todo mundo se sentou ereto na cadeira (os que ainda conseguiam). Sinto informá-los de que – embora, como eu disse, onzenta e um anos seja muito pouco tempo para passar ao lado de vocês – o Fim chegou. Estou indo embora. ADEUS!

O Senhor dos Anéis: A Sociedade do Anel, pg 29