Carlos era um gamer ortodoxo. Sua barriga saliente denotava um estilo sedentário, típico dos rapazes de comum interesse. Claro, havia os que exibiam os seus corpos estilo Alazão, porém o senso comum mostra que as habilidades físicas não são o forte dos semelhantes de Carlos. No auge de seus vinte e sete anos, o rapaz exercia atividades trabalhísticas com apenas uma finalidade específica: poder usufruir de polígonos e texturas em forma de armas e pessoas nos jogos de videogame. A cada mês, algumas dezenas de reais de seu escasso salário iam para o bolso dos pirateiros e bucaneiros de plantão, visto que Carlos consumia apenas produtos piratas. Nada de jogos originais. Na verdade, apenas um, Guitar Hero II, só pela guitarrinha de plástico, e algumas fitinhas originais para seu saudoso Nintendo 64, aposentado há mais de 10 anos. Sem namorada, sua vida social se restringia a conversas com meros desconhecidos via seu headset e troca de mensagens pelo correio eletrônico de seu Xbox 360.

Trabalhava em um local maçante, pegando trens lotados todos os dias, mas quando saía do local de trabalho, sua vida mudava. Logo em seguida, Carlos se via livre para poder encarnar em seu alter ego Cae Skywalker e efetuar o download dos novos mapas de Halo 3 no seu xodó, o Xbox 360. Por sete horas diárias, matou e foi morto no ambiente virtual. Sua glória seria eterna.

No dia seguinte, acordou perturbado devido às poucas horas de sono. A sensação era de ressaca e ele sabia disso, apesar de ter tido poucos porres homéricos na vida. Carlos batia cartão todos os dias às dez da manhã, porém havia três semanas em que chegava consideravelmente atrasado, algo em torno de uma hora. Sua fascinação pelos personagens carismáticos estava interferindo em sua vida física, principalmente após a compra de vários novos games. Estava difícil conciliar a jogatina com Halo 3 e Call of Duty 4, e para não perder habilidade em ambos, resolveu aumentar o expediente gamístico. Ao adentrar o recinto em que juntava recursos para a compra de novos jogos, o seu superior o abordou de forma incisiva e bradou, em meio a papéis, planilhas e funcionários desgostosos: “Estou estupefato com tamanho descaso! Retire-se daqui e nunca mais volte, ó crápula irresponsável! Abutre inconseqüente!”

Carlos, parado diante de seu modesto computador, levantou seus olhos em direção ao seu chefe e suou frio. Não se importava com os xingamentos. Não dava bola para o que os outros ao seu redor pensassem. Apenas entrou em desespero. Sua fascinação por jogos o fazia encomendar de três a quatro deles semanalmente de seu corsário favorito, sem contar com os que ele comprava online. Já tinha concluído cada jogo baixado e, para piorar, a sua conta na Xbox Live expiraria em duas semanas. Por fazer parte de uma família com recursos modestos, não poderia requisitar ajuda por parte de seus parentes e, mesmo que o fizesse, nada receberia além de dores no ouvido e desconforto.

Sua sentença de morte já estava anunciada. Ele tinha de encontrar um jeito de sair de tamanha furada. Tentou convencer o seu chefe a dar uma nova chance a ele, provou por A + B + cima + baixo + L + R que seguiria à risca as normas e horários da honorável empresa, mas foi tudo em vão. O desespero era visível em seu semblante, e nada conseguiu a não ser pena e desprezo. Era a criatura mais medíocre do planeta naquele momento. Nem os seus constantes headshots múltiplos em vários jogos de tiro o fariam retomar a honra. A sanindade de Carlos ao pouco foi desfalecendo, fazendo-o perder a razão. As veias em sua testa tomavam proporções descomunais. Perdeu o controle – e não o de seus videogames, para infortúnio do nosso herói.

Saiu do business center em que se encontrava, avançou pelas ruas da megalópole em decomposição e arrancou suas vestimentas superiores. Com trapos rasgados presos precariamente em seus braços e pescoço, não sabia mais o que faria. Uma série de possibilidades gamísticas se desfizeram em sua mente e ele passaria por um período negro em sua vida nerd. Por mais que conseguisse um novo emprego, isto não aconteceria imediatamente. Carlos perderia uma época dourada na nova geração dos consoles. Ele poderia jogar mais adiante, mas ele queria exclusividade. Encomendou com antecedência os maiores lançamentos da temporada e pagou caro por isso. Sua dívida se tornaria cada vez maior. Mas então ele não se deixou sucumbir aos impropérios do mundo capitalista. Ele decidiu incorporar todo o seu conhecimento gamístico e fazer a justiça com as próprias mãos.

Lembrou-se da Master Sword, espada lendária utilizada nos jogos da série Legend of Zelda e se dirigiu ao supermercado mais próximo. Deslocou-se até a parte mais distante do estabelecimento e saiu à procura de um artefato peculiar, que o ajudaria a reconquistar o que havia acabado de perder. Empunhou o primeiro espeto de churrasco que encontrou e correu. Invadiu recintos comerciais, abordou transeuntes aleatórios, violou propriedades. Sua loucura o levou a tal ponto em que, em questão de trinta minutos, não portava mais um reles espeto de churrasco e sim uma tímida, porém mortal moto-serra, após assaltar uma loja de jardinagem. Agora era um ser perigoso. Deixou de ser um ladrãozinho de rua para se tornar temido no centro da cidade. Não distinguia homens e mulheres, crianças e aleijados. Quem não sucumbisse à sua abordagem criminosa seria mutilado, assim como eram os pobres Locusts de seu Gears of War. As ruas tomaram um aspecto de barbárie, com pessoas desesperadas e carnificina descontrolada. O olhar no rosto de Carlos era o de um maníaco sedento por sangue. Roubava carros e dirigia para cima de pedestres inocentes, ignorando as leis de trânsito e o bom senso. Vivia intensamente cada segundo. Personificava o pior do mundo dos videogames. Matava por prazer.

Em poucos minutos tudo quanto é tipo de força armada estava à caça do outrora pacífico nerd. Ruas eram interditadas e evacuadas. Repórteres destemidos e loucos por uma história digna de aumento salarial se amontoavam a cada esquina para registrar as cenas grotescas. Até que, ironicamente, ele foi acertado com um headshot por um atirador de elite. Carlos, que se gabava e pronunciava impropérios a cada acerto na cabeça de seus inimigos, estava morto. Na vida real. Sem direito a continues.

Durante as investigações, a polícia encontrou centenas de títulos de jogos em sua residência. Logo a mídia de massa atribuiu o fascínio de Carlos aos jogos violentos à suas atrocidades. Dezenas de programas informativos e sensacionalistas condenaram o novo mal do século 21, tal qual padres e mães de família que buscam achar um bode expiatório para a sua performance pífia e medíocre. Gamers e blogueiros protestavam pelo motivo contrário, GTA IV foi proibido de ser vendido em várias partes do mundo, mas teve a sua procura intensificada diante da popularização dos fatos.

Fim.

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O texto acima não é de autoria minha. Foi uma adaptação muito porca de um texto do blog desativado Assopre a fita. Digamos que o conto é 98% do blog citado e 2% meu. Se o dono do antigo blog ler, só tenho a dizer que o texto é muito criativo e reflexivo.

Fiz as alterações porque me identifiquei muito com o texto. Acho que todos os jogadores se identificariam.

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