Incrível como a internet é poderosa. Só ela poderia ser capaz de me trazer algo que eu nunca poderia encontrar por meios convencionais, algo que já procurei em milhares de sebos e colecionadores, tudo em vão: o primeiro filme de zumbis que assisti na vida. Assisti aos sete ou oito anos de idade, e lá se vão quase 20 anos desde que eu me caguei de susto com o primeiro morto-vivo que vi na vida, grudando suas presas na jugular de alguém e arrancando-lhe um naco de carne do pescoço.

hotldcov

Baixei ontem o filme Predadores da Noite (Hell of the Living Dead), produção italiana de 1980, feita no auge da era gore/splatter europeu, época em que se produziu grandes clássicos do terror como Canibal Holocaust e Zombie. Assistindo ao filme que marcou minha infância eu novamente me caguei, só que dessa vez de tanto rir. Nunca, mas nunca mesmo, pensei que acharia tanta asneira e amadorismo num único filme, seja de zumbis ou não. A verdade é que Predadores da Noite foi dirigido Por Vicent Dawn que, pra quem não conhece, é o pseudônimo de Bruno Mattei, considerado o mais picareta, mais amador, mais incompetente, mais incapaz, mais ultra trash, mais cara-de-pau, mais sem vergonha diretor italiano de todos os tempos. De fato, se Ed Wood (considerado o pior diretor do mundo) nascesse na Itália, ele se chamaria Bruno Mattei.

título

Os filmes de Mattei, quase sempre com roteiro de seu amigo do peito Cláudio Fragasso (a quem se aplicam os mesmos adjetivos acima) chegam a ser vergonhosos de tão ruins: péssimo elenco, péssimo roteiro, péssimo figurino, péssima fotografia, péssima edição, péssima trilha sonora, erros grosseiros de montagem, inúmeras cenas ridículas, uso de cenas de documentários para baratear a produção (coisa que Ed Wood também adorava fazer), momentos verdadeiramente vergonhosos, enfim, uma desgraça completa. Junte a isso o fato de que muitos de seus filmes, incluindo Predadores da Noite, são feitos em italiano e depois dublados em inglês (com sincronia labial perfeita, se é que me entende) e o cinéfilo leitor terá uma noção do tamanho da bomba em questão. Talvez justamente por isso, Mattei virou uma espécie de diretor cult para quem gosta do gênero, ou seja, para quem tem o prazer quase masoquista de assistir essas tralhas e adora dar risada vendo filmes ruins – de fato, eu tenho esse prazer. Seus filmes são disputados a tapas por malucos no Mercado Livre, que assistem justamente para gargalhar com o excesso de abobrinhas e o amadorismo das tramas. E é sobre as abrobrinhas e amadorismos do filme em questão o motivo desse post/artigo/TCC/tese de mestrado.

01

O filme já começa a mil por hora. Cientistas estão em um laboratório na Nova Guiné chamado Hope Center trabalhando em um programa ultra-secreto, chamado Doce Morte. Por cientistas, entenda-se um monte de pessoas com jalecos brancos apertando um monte de botões coloridos que piscam. Dois técnicos estão investigando um problema em uma parte do complexo científico quando se deparam com um rato morto. Eles estão vestidos com uma roupa super protetora, mas que mais parece um uniforme da Ku Klux Kan, e até parece que algum vírus ou bactéria não iria penetrar num traje desses. Enfim, um dos dois bocós pega o rato morto na mão e o bicho volta à vida (rato zumbi!), rapidamente penetrando na super protegida roupa do coitado e matando-o, em uma cena ridícula que só vendo. Enquanto cai morto, o mané acaba encostando numa válvula e libera um gás verde suspeito. Os caras contaminados pelo gás voltam à vida como zumbis, e entenda-se por zumbis um bando de figurantes caminhando a passos lentos com a cara pintada com guache verde. Todo o grupo de cientistas é dizimado enquanto um velho, que parece ser o líder do grupo, grava uma mensagem dizendo que a Operação Doce Morte foi um completo fracasso.

2

Enquanto isso, numa embaixada americana, um grupo de terroristas/ecologistas que parecem ter saído do Hermes & Renato fazem reféns e exigem que o governo americano cesse as atividades do Hope Center. A polícia cerca o local, porém não faz nada, já que estão aguardando a chegada de um grupo de operações especiais. Quando o tal grupo chega, eu soltei a primeira grande gargalhada: são quatro jecas, com uma roupinha azul, um boné de pano e armas de plástico, um mais ridículo que o outro. Parece até que os uniformes foram copiados da esquete de Os Trapalhões na qual eles parodiavam a série americana S.W.A.T. Os caras tem cara de tudo, menos de um grupo de operações especiais. Acostume-se, pois esses são os heróis do filme. Ao entrar na embaixada, nossos mocinhos simplesmente metem bala em todo mundo e antes de morrer um bandido diz pra eles algo sobre o inferno, irmão comendo irmão e blá blá blá.

3

Corta para as selvas da Nova Guiné, com o nosso grupo de heróis. Não se sabe se eles estão de férias pela operação bem sucedida, como um deles diz em uma determinada cena, ou se estão investigando o acidente no Hope Center, como outro diz em outro momento. O que se sabe é que eles estão perdidos, sem contato com ninguém pelo rádio e andando em um jipe roubado (!!!), mas isso não importa, pois em breve eles vão encontrar um novo grupo de pessoas. Esse grupo é formado por dois casais e uma criança, filha de um deles. A criança foi mordida por um nativo e está com uma puta ferida purulenta. Um casal é formado pelo cinegrafista Max (que é a cara do Tony Iommi) e pela jornalista Lia. O outro casal e a criança não importam, já que vão morrer logo em seguida. Quando Max e Lia saem para procurar água, a criança mordida vira zumbi (sem pintura verde na cara) e devora seu pai e a mãe é morta por um morto vivo com o rosto decomposto (tenho que dar mão à palmatória, já que a maquiagem dele ficou boa).

4

Max e Lia param num lago (obviamente uma piscina com um matinho aqui e ali) para encher garrafas de água, quando saem do lago alguns zumbis de rosto verde e aparecem mais saindo da floresta. A dupla de jacus fica parada e conversando calmamente, num diálogo ridículo:
Lia: Veja só que horrível! Quem são eles? (frase dita com a maior calma do mundo, piorada pela péssima dublagem em inglês).
Max: Talvez estejam bêbados, ou drogados (Rá!). Ou talvez seja uma colônia de leprosos. Talvez não queiram nos fazer mal. (são zumbis com rosto verde, seu imbecil!). Somente quando os zumbis estão em cima dos dois é que eles resolvem fugir. No meio do caminho encontram nossos azulados heróis, que matam a criança zumbi e os outros monstrengos. A partir daí, Lia e Max juntam-se ao grupo. E é só.

A partir daí acompanhamos os grupo andando de lá pra cá, indo parar em uma aldeia indígena e numa mansão no meio da selva, enfrentando hordas de zumbis no caminho. É nessa parte que somos brindados com as colagens de documentários: quando aparece uma cena em que não há nenhum dos atores nela, pode ter certeza que ela foi tirada de algum documentário sobre a selva africana, do tipo National Geografic, com imagens de cadáveres e esqueletos reais, com cenas de tribos indígenas fazendo estranhos rituais, comendo vísceras de animais e vermes, provavelmente na verdadeira Nova Guiné. Essas cenas são inseridas de forma grosseira na montagem e como são granuladas e filmadas em outro tipo de película, elas destoam totalmente do resto do filme. Pior ainda é que o diretor pegou cenas de macacos pulando de árvore em árvore, cangurus pulando, elefantes passeando, aves voando e meteu tudo no meio da montagem. Não tenho nota 10 em geografia, mas duvido que a metade dos animais mostrados no filme existe mesmo na Nova Guiné. Graças a essa edição “dinâmica”, num momento estamos vendo o ataque dos zumbis, e no outro temos passarinhos e macaquinhos brincando. Também foram inseridas trechos de reuniões reais de políticos, com uma nova dublagem por cima, como se eles estivessem discutindo a crise ocorrida nos laboratórios do Hope Center. Picaretagem total, minha gente.

5

Pra piorar, temos algumas das cenas e diálogos mais idiotas, acéfalos e imbecis da história do cinema em apenas 101 minutos. Numa casa no meio da floresta, um policial encontra algumas roupas num armário. O policial, que é membro de um grupo de operações especiais, todo machão e tal, larga sua arma, se veste com um vestido de bailarina e começa a dançar. Não é preciso dizer que ele é atacado e morre vestido desse jeito ridículo. Noutra cena, dois policiais enfrentam um grupo de mortos vivos. Quando um vai atirar, o outro o impede e solta um “Não faça isso. É minha vez de atirar primeiro”. Outra cena mostra um cara largando sua arma e correndo no meio dos zumbis, dizendo asneiras como “você quer me morder? Hein? Hein?”. Vemos algumas cenas de tensão e brigas entre o casal de repórteres e os policiais, mas isso não importa muito, já que na cena seguinte eles estão rindo e se abraçando, como se fossem os melhores amigos do mundo. Aplausos para Claudio Fragasso, por inventar essas cenas e os diálogos.

6

Quando os acéfalos heróis finalmente chegam nas instalações do Hope Center, nós começamos a nos perguntar “como é que esse bando de jacus conseguiu sobreviver durante o filme inteiro?”.  Uma das mortes chega a dar raiva e quase me fez desligar o computador: ao ver o elevador repleto de zumbis, um dos policiais aponta o rifle para eles. Não é que um dos mortos pega a ponta do rifle e puxa para dentro, fazendo com que o soldado caia bem no meio do grupo de zumbis? Ele não podia ter largado o rifle, atirado, gritado, esperneado, chamado a mamãe, sei lá, feito qualquer coisa? No final, temos um dos mais ridículos (dá pra escolher o pior?) diálogos do filme. A mocinha Lia acaba juntando as peças e descobre qual é a razão pra ter sido criado o projeto Doce Morte. Com vocês, as palavras da reporte Lia: “Todas essas instalações, como uma fábrica para um mundo melhor, com segurança, numa ilha isolada do mundo… tudo faz sentido. Agora posso juntar as peças do quebra cabeça. Eles chamam de Hope (esperança) os centros de pesquisas químicas para o bem da humanidade, para ajudar os países que ainda são subdesenvolvidos. Isso é o que eles nos dizem. A história oficial, porque a realidade é terrível, é inacreditável. Eles estavam trabalhando numa solução para o maior problema desses países: a superpopulação. Os povos mais fracos, os mais indefesos, exterminados pelo modo mais simples, apenas fazendo um comer o outro”.

Pausa pra pensar: quer dizer que o objetivo do projeto Doce Morte é espalhar o gás nos países do terceiro mundo, fazendo que todos se tornem zumbis e se devorem, acabando assim com o problema da superpopulação mundial? Ca-ra-lho! Cláudio Fragasso é o melhor roteirista do mundo! Porque é que nunca ninguém pensou nisso antes? Agora falando sério, o péssimo roteiro que coloca na boca dos atores alguns dos mais ridículos diálogos de todos os tempos, as horríveis interpretações dos quatro ineptos galãs, os efeitos fracos e o amadorismo geral de Bruno Mattei transformam Predadores da Noite de filme de horror em uma perfeita e engraçadíssima comédia. Encarar a produção desta forma, com algumas latas de cerveja na cabeça, é o único jeito de divertir-se vendo essa porcaria. Trata-se de um filme realmente estúpido, impossível de levar a sério. E se você por acaso levar a sério, prepare-se para ter seus olhos e ouvidos sangrando, tamanha a ruindade da produção, antes dos 10 minutos de filme rolando.

Predadores da Noite – Trailer

**********
Se mesmo assim o leitor quiser assistir a essa tralha, os links para download estão logo abaixo.

http://rapidshare.com/files/129055531/Hell_OTLD_ShadowsV.part1.rar
http://rapidshare.com/files/129259418/Hell_OTLD_ShadowsV.part2.rar
http://rapidshare.com/files/129240570/Hell_OTLD_ShadowsV.part3.rar
http://rapidshare.com/files/129226235/Hell_OTLD_ShadowsV.part4.rar
http://rapidshare.com/files/129046856/Hell_OTLD_ShadowsV.part5.rar