Stephen King é uma máquina de fazer dinheiro. Seus livros vendem horrores pelo mundo e são a solução mais rápida para um roteirista com bloqueio de criatividade. Poucos são os filmes e programas de TV de qualidade que possuem o nome do renomado escritor em letras garrafais. De fato, tudo que envolve o nome do escritor, seja na TV ou no cinema, deve ser encarado com empolgação e desespero. Empolgação porque estamos diante de um projeto que tem uma das fontes mais incríveis de roteiro adaptado. E desespero porque esses projetos dificilmente resultam em algo que valha a pena ser assistido.

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Uma das melhores adaptações recentes da obra do escritor pode ser encontrada na mini série Nightmares & Dreamscapes, produzida em 2006 pelo canal TNT e baseada em pequenos contos publicados por Stephen King, em sua maioria reunidos na coletânea Pesadelos e Paisagens Noturnas (versão nacional do livro que dá nome à série). São apenas oito episódios contendo histórias de terror, mistério e suspense, tendo um elenco de figurinhas carimbadas da TV e indicados e vencedores do Oscar, Emmy e Globo de Ouro. O formato dos episódios lembram os bons tempos das séries Além da Imaginação, Contos da Cripta e Night Visions – talvez foi por isso que o resultado final foi muito além do satisfatório, já que os episódios são curtos e bem adaptados dos contos originais.

Abaixo segue um pequeno resumo de cada episódio, devidamente emporcalhados com minhas considerações finais.

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Battleground
Um assassino profissional em mais um dia de trabalho. Sua missão é assassinar o dono de uma grande fábrica de brinquedos. Após terminar o serviço, ele volta ao seu luxuoso apartamento e logo depois recebe uma encomenda, enviada pela mãe do falecido. Dentro do pacote estão apenas soldadinhos de brinquedo e alguns acessórios. O que o assassino não esperava é que os brinquedos ganhassem vida e travassem uma verdadeira guerra em busca de vingança.

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Publicado em 1978 no livro Sombras da Noite, o conto Campo de Batalha foi traduzido de forma competente para a televisão. Houve inclusão de algumas cenas (no livro não vemos como foi assassinado o dono da fábrica) e uma leve alteração na cena final, mas nada que comprometa o episódio. O episódio também foi o responsável pela série ganhar dois Emmys, um em efeitos especiais e outro pela trilha sonora. O destaque fica para os diálogos. Na verdade, pela falta deles: Willian Hurt não solta uma única palavra durante o episódio inteiro, ajudando a nos mostrar como o personagem é um assassino frio e sem alma. Nota 9.

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Crouch End
Um casal em lua de mel em Londres vai jantar na casa de um amigo, que fica em um bairro afastado da cidade. O problema é que todos falam mal do local, dizendo que Crouch End é um lugar amaldiçoado. De fato, alguns alegam que no local há um portal que leva para dimensões paralelas. Não dando ouvidos aos conselhos, o casal se embrenha pelo bairro, só para descobrir tarde demais a assustadora verdade sobre o local.

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A ação decorre sutilmente e, bem, talvez sutilmente demais e isso acabou enfraquecendo um pouco o suspense. Mesmo assim dá pra sentir o medo dos personagens e a força que ambos tentam manter diante dos eventos bizarros que eles presenciam. O conto original foi publicado na coletânea em homenagam a H.P. Lovecraft intitulada New Tales of the Cthulhu Mythos em 1980 (por isso há várias referencias ao escritor no conto/episódio), e depois inclusa no livro de contos Pesadelos e Paisagens Noturnas em 1993. No final das contas, um episódio fraco, o mais fraco da série. Nota 6.

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Umney’s Last Case
Clyde Umney é um detetive particular dos anos 30 que exala canastrice em suas ações e frases e que ama o que faz. Porém de uma hora para outra sua vida muda: seus vizinhos se matam, sua secretária se demite e seu bar preferido é fechado. Logo ele conhece Sam Landry, um homem com calçados estranhos e um laptop no colo, que lhe diz que é escritor e que Clyde não passa de um personagem e fruto de sua imaginação. Cético, o detetive a princípio não acredita, mas basta o escritor brincar um pouco de Deus com seu laptop para convencer Clyde. O que Sam propõe é uma troca: ele fica no lugar do detevive e Clyde vai para o mundo real. Só que ninguém pode prever quais as conseqüências desse ato.

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O conto também faz parte do livro Pesadelos e Paisagens Noturnas, e conta com o ótimo William H. Macy (indicado ao oscar por Fargo) no papel de Sam/Clyde e com Jacqueline McKenzie (The 4400) como a esposa do amargurado escritor. Andei lendo alguns comentários de que o episódio é muito ofensivo para os fãs xiitas de Stephen King por causa das alterações e concessões do roteiro em relação ao material original. Como ainda não li, então só posso dizer que é um episódio que foge do tema suspense/terror e tem uma veia mais voltada para o fantástico, tema que o escritor domina muito bem. Nota 8.

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The End of the Whole Mess
Um novo mundo foi erguido. Nele, a violência humana foi extinta graças um genial cientista. Acompanhamos o depoimento de seu irmão, um documentarista premiado com apenas uma hora de vida restante, deixando uma mensagem gravada ao mundo explicando como tudo começou e vemos desde a infância dos dois irmãos até o momento em que a paz mundial finalmente é alcançada. Mas o demônio está nos detalhes, e o documentarista usa sua última hora de vida para contar o que aconteceu com a raça humana.

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De longe o episódio mais fiel ao conto. Todas as cenas e diálogos que li e imaginei estão retratadas na história, mas houve pequenas concessões, apenas para melhor nos contextualizarmos com a trama. No conto, escrito em 1986, o estopim para que o personagem começasse a estudar as origens da violência humana foi a detonação de uma bomba nuclear pela China; no episódio, foi o 11 de setembro o motivo. No elenco estão Ron Livingston (Band of Brothers) e Henry Thomas (o agora irreconhecível Elliot de E.T.). O conto foi publicado na revista Omni Magazine e depois incluído no livro Pesadelos e Paisagens Noturnas. Nota 10, com louvor.

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The Road Virus Heads North
Richard Kinnell é um escritor famoso pelos seus livros de terror (Stephen King, alguém?) que volta de uma convenção. No caminho pára numa daquelas vendas de garagem, onde compra um assustador quadro de um pintor da região, que havia se suicidado. Antes de se matar, o jovem pintor destruiu toda sua obra, deixando apenas um quadro intacto. Aos poucos o escritor toma consciência de que aquele não é um quadro qualquer e que parece ter vida: aos poucos o quadro vai mudando os locais retratados da pintura, como se o motorista mostrado na imagem estivesse seguindo de carro o famoso escritor.

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Tom Berenger (indicado ao Oscar por Platoon) faz um Richard Kinnel com competência, nada mais. O destaque é para a pintura mostrada no episódio, realmente medonha e que parece viva às vezes. O conto foi publicado originalmente em 1999 e depois incluso na coletânea Tudo é Eventual em 2002. Não achei muitas críticas a respeito, mas como aconteceu em Umney’s Last Case, muitos fãs não acharam a adaptação digna de um conto do escritor. Nota 8.

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The Fifth Quarter
Um ex-presidiário sai em busca de vingança pela morte de seu colega de cela e melhor amigo. Pouco antes de morrer seu amigo lhe informa que participou de um grande crime e que o dinheiro foi escondido. Foi feito um mapa e dividido em 4 partes entre os membros da quadrinha, na qual seu amigo tem uma parte. O ex-presidiário se torna então a “quinta parte” do grupo, vai atrás dos responsáveis pela morte do amigo e tenta juntar as partes restantes do mapa para mudar de vida.

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Mais um episódio que foge do tema sobrenatural para nos apresentar uma história mais realista, sobre ganância e traição. Jeremy Sisto leva o episódio nas costas com uma ótima atuação de um presidiário comovente e emotivo, apoiado pelo restante do elenco. Antes de ser publicado no livro-título da série, o conto A Quinta Quarta Parte foi lançado na revista Cavalier em abril de 1972. Nota 8.

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Autopsy Room Four
Um grande empresário chega num saco plástico direto para a sala de autópsia, porém ele está vendo e ouvindo tudo o que acontece ao seu redor. Diagnosticado como morto por ataque cardíaco, aos poucos ele vai se lembrando do que aconteceu: durante uma partida de golf, ele foi picado por uma cobra que paralisou seus músculos. Agora o pior pode acontecer e ele será testemunha de sua própria autópsia.

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Richard Thomas está brilhante no papel do defunto e me fez rir horrores, mesmo sem se mover e nem piscar um olho. De fato, ironias e muito humor negro dão o tom do episódio, onde S.K. (desculpe a intimidade) mostra sua veia cômica no conto original, sem se esquecer da tensão da trama, que poderia ser considerada um absurdo tão grande que seria cômico se não fosse trágico. História publicada no livro Tudo é Eventual, de 2002. Nota 8.

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You know they got a hell of a band
Clark e Mary são um casal que está de viagem quando decidem fazer uma parada. Clark então tem a idéia nada brilhante de pegar um atalho para chegarem mais cedo ao seu destino. Depois de horas numa estrada esburacada no meio do nada, eles acabam indo parar em uma cidade chamada Paraíso do Rock´n Roll, uma cidadezinha que parece ter parado nos anos 60. Tudo parece normal, exceto pelos moradores, que possuem extrema semelhança com grandes nomes do rock, que coincidentemente (ou não) já estão mortos.

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Já li esse conto, chamado por aqui de “Sabe, Eles Tem Uma Banda Dos Diabos”, que está no livro-título e que foi publicado antes na coletânea de histórias inspiradas no rock chamada Shock Rock em 1992. Gostei muito da história original, mas na adaptação houve algumas alterações que não foram interessantes, pelo menos pra quem já leu o conto. Assim como no conto, o episódio mostra um lado sombrio dos músicos que nunca havíamos pensado antes. O problema é o suspense (ou a falta dele), pois não há nenhum momento angustiante durante toda a exibição. Mesmo assim é uma história divertida e mesmo com seus erros e limitações, o resultado final é satisfatório. Nota 7.

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Interessado? Quer tirar sua própria conclusão? Assistiu filmes demais e se acha no direito de fazer críticas enormes como se estivesse analisando Cidadão Kane? Então baixe a série aqui.

Nightmares & Dreamscapes Trailer