Caim rebelado

Garrish saiu do brilhante sol de maio para o frio dos dormitórios. Seus olhos demoraram um instante para adaptar-se, de modo que Harry “o Castor” foi, a princípio, apenas uma voz incorpórea, vinda das sombras.

– Foi uma droga hein? – perguntou o Castor. – Não foi mesmo uma verdadeira droga?

– Foi – respondeu Garrish. – Foi dureza.

Agora seus olhos pousavam no Castor. Ele esfregava a mão nas espinhas da testa e havia suor sob seus olhos. Usava sandálias e uma camiseta 69, tendo à frente um broche que dizia “Howdy Doody era um pervertido”. Seus enormes dentes protuberantes cintilavam na penumbra.

– Eu ia largar em janeiro – disse Castor. – Fiquei repetindo pra mim, caia fora enquanto é tempo. Então, acabou o período de desistência e era continuar ou perder o ano. Acho que levei pau, Curt. Palavra.

A inspetora estava parada no canto, ao lado das caixas de correspondências. Era uma mulher extremamente alta, parecia vagarosamente com Rodolfo Valentino. Com uma das mãos, tentava endireitar uma alça por baixo da cava suada do vestido, enquanto com a outra pregava com percevejos uma lista enorme com os nomes dos que deixavam o dormitório.

– Dureza – repetiu Garrish.

– Tentei colar alguma coisa de você, mas não tive coragem, juro por Deus. Aquele cara tem olhos de águia! Acha que conseguiu seu A?

– Acho que talvez leve pau – respondeu Garrish.

– Acha que vai levar pau? Você acha que…

– Vou tomar uma ducha, certo?

– Sim, certo, Curt. Essa foi a sua última prova?

– Foi – respondeu Garrish – Essa foi a minha última prova.

Garrish cruzou o saguão, atravessou as portas e começou a subir. O poço da escada cheirava como um suporte atlético. Os mesmos velhos degraus. Seu quarto ficava no quinto andar.

Quinn e aquele outro idiota do terceiro, o que tinha pernas cabeludas, cruzaram com ele, atirando uma bola de softball de um lado para outro. Um sujeitinho de óculos de aro e um cavanhaque que se esforçava valentemente para aparecer passou ao seu lado entre o quarto e o quinto, apertando um livro de cálculo contra o peito, como uma bíblia, os lábios se movendo em um rosário de logaritmos. Seus olhos eram vazios como quadros negros.

Garrish parou e o seguiu com o olhar, perguntando-se se não seria melhor ele estar morto, mas o sujeitinho era agora apenas uma sombra vacilante que desaparecia contra a parede. Ela oscilou uma vez apenas e desapareceu. Garrish subiu para o quinto e desceu o corredor até o seu quarto. Porcão havia partido dois dias antes. Quatro provas finais em três dias, um esforço dos diabos, e me dê o meu boné… Porcão sabia como fazer as coisas. Deixara para trás apenas os pôsteres de suas pin ups, duas meias sem par, suadas e fedorentas, e uma paródia do Pensador de Rodin, empoleirada em um vaso sanitário.

Garrish enfiou sua chave na fechadura e girou.

– Curt! Ei, Curt!

Rollins, o asinino conselheiro daquele pavimento,  que tinha enviado Jimmy Brody para conversar com o diretor, por infração alcoólica, vinha descendo o corredor e acenava para ele. Era alto, corpulento, de cabelos em corte rente, simétrico. Parecia envernizado.

– Você já encerrou? – Perguntou Rollins.

– É.

– Não esqueça de varrer o chão do quarto e preencher o relatório de danos, certo?

– Tudo bem.

– Enfiei o relatório de danos debaixo da sua porta quinta passada, c erto?

– É.

– Se eu não estiver no meu quarto, basta enfiar o relatório de danos e a chave por baixo da porta.

– Certo.

Rollins agarrou a mão de Garrish e a apertou duas vezes, rapidamente, pump pump.. a palma da mão de Rollins era seca, a pele arenosa. Apertar a mão de Rollins era como apertar um punhado de sal.

– Tenha um bom verão, meu chapa.

– Certo.

– Não trabalhe demais.

– Não.

– Use, mas não abuse.

– Vou usar, mas não abusar.

Rollins pareceu um pouco intrigado, mas depois riu.

– Muito bem, cuide-se, rapaz.

Bateu no ombro de Garrishe continuou a descer o corredor, parando uma vez para dizer a Ron Frane que abaixasse o volume do som. Garrish podia ver Rollins jazendo morto numa sarjeta com larvas nos olhos. Rollins não se importaria. Nem as larvas. A gente come o mundo ou o mundo nos come e tudo acaba bem, de um jeito ou de outro.

Garrish ficou parado e pensativo, olhando até Rollins desaparecer de vista. Só então entrou em seu quarto.

Sem a ciclônica bagunça de Porcão, o aposento parecia nu e estéril. A montanha desordenada, crescida e dispersa que havia sido a cama de Porcão, desaparecera por completo, restando apenas o colchão desnudo – embora ligeiramente manchado de esperma. Duas páginas duplas de Playboy olhavam para ele, exibindo frígidos convites bidimensionais.

Houvera pouca mudança na metade do quarto que pertencia a Garrish, que sempre estivera arrumada como um quartel. Você podia deixar uma moeda cair sobre a esticada coberta de sua cama e ela certamente ricochetearia. Toda aquela arrumação dava nos nervos de Porcão. Ele fazia especialização em inglês e tinha tendência para belas frases. Chamava Garrish de dono-de-pombal. A única coisa na parede, acima da cama de Garrish, era uma grande ampliação fotográfica de Humphrey Bogart, que adquirira na livraria da universidade. Bogie empunhava uma pistola automática em cada mão e usava suspensórios. Porcão dizia que pistolas e braçadeiras eram símbolos de impotência. Garrish duvidava muito que Bogie tivesse sido impotente, mesmo nunca tendo lido nada sobre ele.

Chegou à porta do armário embutido, destrancou-a e tirou a enorme Magnum 352 com coronha de nogueira, que seu pai, um ministro metodista, lhe comprara de presente de natal. Ele mesmo comprara o visor telescópio março passado.

Não se podia ter armas nos quartos, nem mesmo rifles de caça, porém não tinha sido difícil. Ele o apanhara no dia anterior no depósito de armas da universidade, apresentando uma forjada papelada de retirada. Colocara-a em seu estojo de couro à prova d´água e o deixara no bosque atrás do campo de futebol. Esta madrugada, por volta das três horas, deixara seu dormitório e tinha ido apanhá-lo, trazendo-o de volta através dos corredores adormecidos.

Garrish sentou-se na cama, com o rifle cruzado sobre os joelhos, e chorou um pouquinho. O Pensador olhava para ele, sentado em seu vaso sanitário. Garrish largou a arma em cima da cama, cruzou o quarto e, com um tapa, jogou-o fora da mesa de Porcão. O Pensador de cerâmica caiu no chão, estilhaçando-se. Houve uma batida à porta.

Garrish escondeu o rifle embaixo da cama.

– Entre!

Era Bailey, em roupas de baixo. Havia m rolo de fios de tecido em seu umbigo. Não existirá futuro para Bailey. Ele se casaria com uma garota imbecil e os dois teriam filhos imbecis. Mais tarde, Bailey morreria de câncer ou insuficiência renal.

– Como foi em sua final de química, Curt?

– Tudo bem.

– Queria saber se podia me emprestar suas anotações. Tenho química amanhã.

– Eu as queimei com meu lixo, esta manhã.

– Oh! Meu Deus! Porcão fez isso? – e ele apontou para os estilhaços do Pensador.

-Sim.

– Por que tinha que fazer isso, se ia embora? Eu gostava daquela coisa. Ia comprar dele.

Bailey tinha feições miúdas e aguçadas, como as de um rato. Sua roupa de baixo era surrada, com fundilhos empapuçados. Garrish podia ver exatamente como ele ficaria, morrendo de enfizema ou coisa assim, em uma tenda de oxigênio. Como ficaria amarelo. Eu poderia ajudá-lo, pensou.

– Acha que se importaria se eu ficasse com as pin ups?

– Acho que não.

– Ótimo – Bailey cruzou o quarto, os pés nus pisando cautelosamente nos cacos de cerâmica, e tirou os percevejos que prendiam os pôsteres das coelhinhas – Essa foto de Bogart também é um barato. Sem peitnhos, mas, puxa! Entende? – Bailey olhou de esguelha para Garrish, querendo ver se ele sorriria. Como não houve nenhum sorriso, acrescentou: – Está pretendendo desfazer-se dele?

– Não. Só estava me preparando para uma ducha.

– Tudo bem, se não tornar a vê-lo, tenha um bom verão, Curt.

– Obrigado.

Bailey caminhou até a porta, com os fundilhos bamboleando. Ali, parou e se virou.

– Outros quatro pontos esse semestre, Curt?

– No mínimo.

– Boa, até o ano que vem!

Saiu e fechou a porta. Garrish se sentou na cama por um momento, depois apanhou o rifle, desmontou-o e limpou-o. levou a boca da arma até o olho e espiou para o pequeno círculo de luz na extremidade oposta. O cano estava limpo. Tornou a montar a arma. Na terceira gaveta de sua cômoda havia três pesadas caixas de munição Winchester. Colocou-as sobre o peitoril da janela. Passou a chave na porta do quarto e retornou à janela. Ergueu as persianas.

A alameda principal da universidade estava clara e verdejante, pontilhada de estudantes indo e vindo. Quinn e seu amigo idiota estavam entretidos com mais um grupo, jogando bola. Corriam de um lado para outro, como formigas aleijadas escapando de um buraco desnivelado.

– Vou te dizer uma coisa – falou Garrish para Bogie – Deus ficou puto com Caim, porque Caim achava que Deus era vegetariano. O irmão dele é que sabia. Deus fez o mundo à Sua imagem, e se a gente não devora o mundo, ele nos devora. Foi então que Caim perguntou ao irmão: “Por que não me contou?”. E o irmão respondeu: “Por que você não ouviu?”. E Caim disse: “Certo, estou ouvindo agora”. Então, ele dá cabo do irmão e diz: “Ei, Deus! você quer carne? Aqui tem! Prefere assada, em bifes, grelhada, de que jeito?”. E Deus botou ele pra danças. E então… o que você acha?

Não houve resposta de Bogie.

Garrish ergueu a janela e descansou os cotovelos no peitoril, sem deixar que o cano da arma se projetasse para fora, à luz do sol. Olhou pelo visor.

Centrou-o no dormitório feminino do Carlton Memorial, no outro lado da alameda principal. O Carlton era mais popularmente conhecido como “o canil”. Colocou a mira sobre uma grande caminhonete Ford. Uma aluna loura, em jeans e top azul, conversava com a mãe, enquanto o pai, de rosto corado e calvo, enchia a traseira da caminhonete com malas.

Alguém bateu à porta.

Garrish esperou.

A batida repetiu-se.

– Curt, eu lhe darei meia prata pelo pôster de Bogart!

Bailey.

Garrish não disse nada. A garota e sua mãe riram de alguma coisa, ignorando que haviam micróbios em seus intestinos, alimentando-se, dividindo-se, multiplicando-se. O pai da garota se juntou a elas e ficaram reunidos ao sol, um retrato de família na mira da arma.

– Que se foda – exclamou Bailey.

Seus pés se moveram corredor abaixo.

Garrish apertou o gatilho.

O rifle escoiceou seu ombro com força, o bom e acolchoado coice de quando se tem a arma apoiada exatamente onde se quer. A cabeça loura a garota se espatifou.

Sua mãe continuou a rindo por um momento, depois levou a mão à boca. Gritou por entre os dedos. Garrish atirou neles. Mão e cabeça desapareceram, em borrifos vermelhos. O homem que estivera colocando as malas no  carro começou a correr desesperadamente.

Garrish o seguiu com a arma e baleou-o nas costa. O homem levantou a cabeça, ficando fora do visor por um instante. Quinn segurava uma bola de softball e olhava para os miolos da garota loura, salpicados sobre uma placa de Proibido Estacionar, atrás de seu corpo caído. Quinn não se moveu. Por toda a alameda principal, as pessoas ficaram imóveis, como crianças brincando de estátua.

Alguém esmurrou a porta, depois sacudiu a maçaneta. Bailey novamente.

– Curt! Você está bem, Curt? Acho que alguém está…

– Boa comida, boa carne, bom Deus, vamos comer! – Exclamou Garrish, e atirou em Quinn.

Ele empurrou o gatilho ao invés de apertá-lo, de modo que o tiro se perdeu. Quinn agora corria. Sem problema. O segundo tiro o pegou no pescoço, fazendo-o voar por uns seis metros.

– Curt Garrish está se matando! – Gritava Bailey – Rollins! Rollins! Venha depressa!

Suas pisadas distanciaram-se, corredor abaixo.

Agora, eles começavam a correr. Garrish podia ouvir a gritaria geral. Podia ouvir o distante tap tap de seus sapatos na calçada.

Ergueu seus olhos para Bogie. Bogie empunhava suas duas armas e olhou através dele. Garrish contemplou os restos estilhaçados do Pensador de Porcão e perguntou-se o que ele estaria fazendo naquele momento, se dormia, se via televisão, ou devorava alguma grande e bela refeição. Coma tudo, Porcão, pensou Garrish. Engula esse otário de uma vez.

– Garrish! – agorra era Rollins que esmurrava a porta – Abra, Garrish!

– Está trancada à chave! – ofegou Bailey – Ele estava estranho, ele se matou, eu sei!

Garrish empurrou novamente o cano da arma para fora da janela. Um rapaz de camisa xadrez, agachado atrás de um arbusto, vigiava as janelas dos dormitórios, com desesperada ansiedade. Garrish percebeu que ele queria correr, mas estava com pás pernas endurecidas.

Vamos comer, bom Deus. – murmurou Garrish, e começou a puxar o gatilho de novo.

Tripulação de Esqueletos, pg 151