Dan Brown é um cara esperto. Eu, pelo contrário, sou burro. A verdade é que o homem atacou de novo. Lançou um livro novo e já ganhou mais uma montanha de dinheiro. Embora não seja um sucesso crítico, qualquer porcaria que tenha o nome Dan Brown escancarado na capa é uma máquina de fazer dinheiro como dificilmente se vê no mercado editorial. Se Dan Brown não é um escritor dos mais originais ou cheio de recursos, pelo menos, é um dos mais espertos do planeta. Suas obras são clones quase perfeitos umas das outras, e, mesmo assim, produzem dinheiro como água. Parecem com os livros escritos por computadores, feitos para as massas ignorantes, como é mostrado no clássico 1984, de George Orwell.

Li alguns capítulos de seu novo livro na Livraria Cultura semana passada, em inglês mesmo, e já deu pra perceber que a fórmula criada pelo escritor se repetiu mais uma vez. Conhecendo os limites literários de seu público alvo, Dan Brown escreve capítulos curtos, com no máximo 4 páginas, e com um baita gancho para o capítulo seguinte, que acaba seqüestrando a atenção do leitor e o faz perder o ponto do ônibus ou descer na estação errada do metrô.

O problema é que a receita já está manjada e agora qualquer um pode ser o próximo Dan Brown. Você pode muito bem aprender com o mestre e gerar uns trocadinhos nesses tempos de recessão e desemprego, ainda mais em épocas como essa onde qualquer lixo pode ser publicado, desde que tenha um tema místico/religioso/auto-ajuda, como “Jesus: o Maior Designer de Interiores que Existiu”, “Quem Mexeu no meu Doce de Beterraba” ou “O Monge e o Gari de Rua de São Paulo”. Para seguir os passos do mestre da literatura fast food, basta copiar a história que vem a seguir, substituindo os números pelas legendas que estão logo no final do post.

(1), um(a) grande especialista em (2), é chamado(a) às pressas e de maneira secreta para auxiliar na investigação de em um caso importante, onde (3), um importante especialista em (4), foi assassinado por um bandido misterioso no interior de (5). Começa aqui uma frenética busca pelo assassino que revelará uma perigosa conspiração, que colocará em risco a vida de importantes líderes mundiais e/ou abalará estrutura de poderosas organizações. Segredos capazes de mudar profundamente o mundo estarão em jogo.

Nesta investigação, (1) contará com a ajuda de (6), que também é um dos maiores especialistas no mundo em (7). Juntos, eles irão aos mais variados e perigosos locais, que incluem mansões, museus, igrejas históricas, laboratórios de alta tecnologia e as ruas de famosas cidades, onde terão sua vida constantemente ameaçada por (8), o cruel e ameaçador capanga de (9), o traiçoeiro conspirador que mantém sua identidade em segredo. Neste jogo de gato-e-rato, nossos heróis correrão contra o tempo, percorrendo vários locais intrigantes enquanto desvendam pistas capazes de levá-los ao próximo passo e à eventual descoberta do grande segredo, tudo num curto prazo de tempo, no máximo 12 horas. Durante a jornada, (1) e (5) também conhecerão o prestativo e altruísta (10), que lhes prestará grande ajuda prontamente, sem hesitar.

No final, (10), o amigão do peito dos heróis, irá se revelar um traidor: ele na verdade é (9), o chefe da conspiração. Depois de um confronto final, Quando a vida de (1) estiver em grande risco, e quando tudo parecer perdido, o herói/heroína se safará utilizando (11), o que fará os leitores ficarem indignados e com vontade de arremessar o livro pela janela.

Viu como é fácil criar uma verdadeira trama danbrowniana? Agora é só esperar para ver quem será o segundo brasileiro a copiar seguir os passos do mestre. Sim, segundo, já que saiu há alguns anos um livro intitulado O Código Aleijadinho, onde se pode achar com facilidade todos os ingredientes utilizados com sucesso nos livros de Dan Brown. A sinopse é risível e já dá uma idéia do que está por vir:

“Um estranho suicídio dentro da famosa Igreja da Sé de Mariana, em Minas Gerais, faz emergir uma espantosa conspiração para redescobrir um segredo que desde os primórdios da humanidade era protegido pela primeira sociedade secreta existente e estava perdido há mais de 200 anos. O suicida é o importante diretor do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan), Walter Pilares, que acabara de encontrar a prova definitiva da existência da Sociedade dos Eternos, uma antiga seita que aprendeu como controlar a morte e teve como membros Buda, Jesus, Maomé e os profetas bíblicos.

Acuado com a presença de um espectro e percebendo a morte iminente, Walter tira sua própria vida para atrair a atenção de seus dois melhores amigos, o excêntrico e recluso especialista em arte barroca Leloir e o bibliotecário Germano Viveiros, os únicos que podem reconhecer o segredo que ele encontrou.

Quando sua filha, a estudante de jornalismo Anna Mariana, aparece para ajudar Leloir, eles se tornam os principais suspeitos do crime e, para provar sua inocência, percorrem as cidades históricas de Minas Gerais tentando decifrar um complexo jogo de peças que irá revelar o segredo mais poderoso de todos os tempos: a eternidade.

Sempre poucos minutos à frente das autoridades e dos perigosos membros da Sociedade dos Eternos interessados em proteger seu segredo, Leloir e Anna procuram pistas ocultas nas obras do mestre Aleijadinho e se envolvem numa busca fantástica pelo significado dos objetos mais fascinantes concebidos pela imaginação humana.”

Enquanto isso, agora só nos resta torcer para que Tom Hanks faça um Robert Langdon menos forçado do que os anteriores.

**********
Legendas
(1) – Nosso herói/heroína. Bonitão/bonitona e, mesmo sendo especialista em um campo meramente teórico do conhecimento, na hora do aperto é capaz de vencer, com uma mão nas costas, uma dúzia de fuzileiros navais em combate desarmado.

(2) – A especialidade acadêmica do nosso herói/heroína.

(3) – O defunto, detentor de um grande segredo. Tem grande ligação pessoal com (5).

(4) – A especialidade do defunto.

(5) – Um lugar de segurança máxima.

(6) – Alguém do sexo oposto ao do herói. Haverá uma nítida tensão sexual entre eles, e pelo menos um dos dois terá, nas palavras do autor, “belas coxas torneadas”. Uma hora, invariavelmente, os dois irão para cama, ou já foram. Há uma enorme chance de que este personagem seja filho/filha/sobrinho/sobrinha de (3).

(7) – A especialidade acadêmica do(a) companheiro(a) do herói/heroína.

(8) – Capanga do vilão. Quando criança, usava lupas para colocar fogo em formigas, amarrava rojões no rabo do gato e matava passarinho com estilingue, entre outras malvadezas.

(9) – O grande conspirador. Devotou sua vida a construir uma personalidade de fachada, que o habilitou a secretamente manipular dezenas de pessoas.

(10) – O amigão do peito dos heróis, que os ajudará prontamente.

(11) – Um truque incrível que deixaria o McGyver com complexo de inferioridade, utilizando elementos improvisados e que, no mundo real, sob regras válidas da física, não funcionaria nunca.