Os cemitérios nunca fizeram parte do meu porco roteiro de passeios, mas em breve chegará o momento em que estarei bengalando pelos caminhos e áleas com expressão séria e meditativa. O fato é que estou velho, um velho de corpo e alma, tal qual um ancião de 80 anos. Não tenho mais paciência nem disposição física para aturar e fazer coisas que me acometiam na tenra juventude. Não, idoso leitor, não estou brincando. Brincadeiras, na minha avançada idade, já é uma coisa que evito há tempos. Realmente, é uma coisa que evito com o mesmo fervor que deve ser evitado um passeio de helicóptero sobre o Morro dos Macacos.

Olho para trás e vejo que minha existência é sem sentido. Não fiz nada de bom e não adicionei nada de útil à humanidade. Tenho asco ao encostar nas pessoas nos transportes públicos da vida e sempre sento nos bancos individuais nos coletivos, evitando contato físico ao máximo. Sou desprezível. Existe um ditado, um mantra, uma regra, uma lei cósmica, sei lá, que diz que todo homem, para justificar seu lugar ocupado no mundo, deve plantar uma árvore, ter um filho e escrever um livro. O máximo que consegui chegar foi esse blog, onde escrevo torto por linhas virtuais retas. Um desperdício.

Não pratico esportes. Não faço ioga, pilates ou alongamento. Faço uma hora de academia sim, todos os dias, mas não sinto nenhum efeito além de ossos e juntas doendo. Enquanto me mato para levantar 20kg, a menina do meu lado levanta 80 e não deixa escorrer uma gota de suor. Cansei. Pra ter uma vida saudável eu prefiro continuar exercitando somente a mente, o cérebro, essa massa cinzenta que irá se decompor e servir de alimento para os vermes quando eu for parar a sete palmos de terra. Meu segredo, minha receita para uma vida cerebral saudável, para chegar com alguma dignidade e boa disposição mental ao crepúsculo final que nos espera, é ficar sentado. Sentado e deitado.

Sento diante da televisão, joystick (no meu tempo se falava assim) na mão e um bom jogo na bandeja do meu cacarejante Xisboca, em disputadas partidas contra seres virtuais e/ou reais, exercitando meu parco inglês e meu raciocínio lógico, pondo em prática as teorias de convívio social e vendo se posso aplicá-las ao universo online (não é o provedor). Deito na cama, controle do DVD numa mão e da TV noutra, e alimento minhas entranhas mentais com filmes e séries de qualidade, com roteiros sapientes e interpretações idem, que me proporcionam horas de prazer em minh´alma. Sento confortavelmente na minha cadeirinha de plástico, em frente ao monitor com todos os seus complementos habituais: teclado, CPU, camundongo e USB – passo horas googleando o mundo.

Eis o segredo para viver sem demência ou sentir nas costas o toque gelado dos dedinhos finos do Alzheimer, já que sentir o toque quente dos dedões grossos do proctologista é inevitável. Todos esses equipamentos, comigo sentadão/deitadão a manejá-los, de forma correta e constante, é o que me mantém, e ainda manterá, por muito tempo, com a mente sã e distante de qualquer andador de alumínio, por mais moderno e lustroso que ele seja. É a única solução, já que o corpo, essa carcaça onde minha mente se prende, já se desgastou faz tempo.